(cap.18)
“Continuavam os tormentos do Graça no tirar de azimutes.
Ninguém sabia para que ponta do barco devia virar a cabeça, em oração, nem sequer como encontrar o Deus escolhido por cada qual.
Não havia Norte, não havia Sul. Não havia sol há três dias, que ajudasse na difícil tarefa. A lua também viajava em rota incerta e não deixara registos no seu check-in inter-estrelar.
Para aumentar a confusão, ninguém sabia a que deus pedir socorro, pois estávamos com a alma a meio caminho entre Deus e Alá e fraquejando, com ar de politeístas de subúrbio. Vá lá que não sopravam ventos nem choviam chuvas!
Vagueávamos entre Cristo e Maomé. Entre José, o pobre carpinteiro e o pai de Maomé, de quem nem sabíamos o nome quanto mais o ofício a que se entregava!
Volta e meia, o Jaime fazia uma fugaz aparição carregada de simbolismo e, envolvido numa esplendorosa aura mística, tranquilizava as nossas agitadas almas com salmos e hinos de ambos os credos. Mas eram actos pontuais.
Porém, todos acreditávamos que mal é que ninguém haveria de ficar, pois, se Deus soprasse os seus irados ventos, Alá os sugaria da outra banda, e se fosse este último a lançar sobre nós as ciladas do maligno, Deus nos protegeria, afogando tais ciladeiros nas profundezas deste mar, como fizera já com os egípcios no Mar Vermelho.
Houve até quem, nos artículos de um extremado platonismo religioso, tivesse jurado, de mãos abertas e nágedas erguidas à torreira do Sol, ter entrevisto nas franjas de uma nuvem, o próprio Buda. Ele, o imenso, em pleno aquecimento, saído do banco de suplentes divino, pronto a entrar também em acção, a qualquer momento.
Este mar, por onde andávamos, é que já ninguém sabia qual era, embora desconfiássemos, não tendo ainda entrevisto o Canal do Suez, ser ainda o já tão familiar Mediterrâneo.
Estando nos finais do Janeiro o frio convidava a alguma actividade a bordo. Como o espaço para jogging não abundava, e jogar ténis implicaria uma enorme despesa em bolas perdidas, tínhamos convencido o Jaime a contratar um acordeonista.
Como éramos à volta de cinquenta, um pouquinho daqui, um pouquinho dacolá, ficaria barato pagar a um ou dois animadores encartados. E depois, a verdade é que a religiosidade não pressupõe um refrear das almas, nem, muito menos, o enjaular das suas efusividades. Aliás – alegou ainda uma comissão – dessa exaltação, sairia ainda mais forte e vibrante o júbilo que empregaríamos nas evocações ao divino, em todas as demais conhecidas posições pouco ortodoxas.
Veio então um jovem acordeonista, exímio executante das artes do fole.
Era um rapaz novito, de que não me lembro o nome, e que acabou mesmo por dispensar qualquer cachet, deixando-se ir pelo passeio.
Era fantástico, o rapaz!
Tocava tudo à primeira, era só pedir: - “olha, toca isto! Olha toca aquilo!” - e ele, zás, era como uma máquina de tricotar. Às vezes, até engatava o aquilo no isto, ou isto no aquilo e a gente só o dava por ela, ao mancar da perna no passo seguinte.
Tocava com tanta alma, que o barco a certa altura orientava o seu baloiçar pela música e não pelo ondular das águas do mar. Assim, via-se, por exemplo, o mar ondulando e o barco sereno. Depois o mar em serenas melancolias e o barco entregue a baloiçadas agitações. Às vezes a ondulação agitada em demónios e o barco nas pazes de Alá. E às vezes, ainda, ia-se com o mar em tango e o barco em valsa.
Contado ninguém acredita.
Só faltou ver Júpiter balouçando a pança, amparando os extremos da embarcação nas formosas ancas do tridente.”
…
”Por essa altura o acordeonismo levava clara vantagem sobre o Islão, e tão brilhante era o rapaz que não tardou a que Harpa se pusesse a refrescar no abre e fecha do fole branco e negro do alegre instrumento.
Volta e meia, o rapaz dedicava-lhe uma valsa ou um ritmo apelativo, e dava-lhes títulos popularuchos, em puro jeito de atendimento personalizado: “Valsa para Harpa em Alá Maior”, “Fandango para a morena da proa”, ou até o “Vira dos desorientados” e muitos outros que anunciava sempre com entoação igual à dos apresentadores de circo.
Harpa crescera.
Mulheresceu!
Ganhou uma segurança nos seus gestos, uma consciência da sua luz, que tudo nela era cinematográfico. Sabia até que atingia o seu esplendor nas típicas posições em que fazíamos as orações comunitárias.”
…
“Por esta altura já era um não mais parar de valsas, de modo que já ninguém suportava ternários nas pernas. A tal ponto assim era, que foram surgindo as primeiras queixas.
- “Oh Nuno, - assim se chamava ele, que agora me lembro! - convenhamos que, para uma tripulação de bípedes, é um terrível desconforto dançar insistentemente a três tempos. Ainda se fossemos uma bipulação de trípedes...!” – e explodiu uma enorme gargalhada por todo o barco!
- “Não seja por isso! Foi Maomé que pediu um fandango? Pois Al-fandanguemos. Cá vai um em estilo italo-eslâmico. Chama-se ”Fandango Harpista Al-Qaeda del Sole nel mare” –, era de facto um belo título. O sacana do gajo!
E logo se atirou ao instrumento para um intrincado fandango, e toda a gente se agitou de novo no pequeno terraço gradeado sobre o tecto da cabine do Graça, que dava em doido com estes súbitos trovoares de sapatear intenso que estouravam justamente sobre a sua cabeça, negando-lhe as concentrações.
E assim se quedava, em balanços agitados, distribuindo por alguns minutos uns sacos de folia aos prisioneiros do mar. Mas às tantas, lá voltavam as valsas.
A certa altura, também já ele dançava ao som do próprio acordeão, que ficava ali esmagado entre o peito de Harpa e o dele. Lá iam rodando, e quadradando, e pentagonando. Não me lembro se chegaram até a hexagonar alguma vez.
Ela toda curvada para se deixar encaixar no acordeão – o seu peito era belíssimo, mas não preocupantemente grande – e ele que já de si andava de costas caídas, limitava-se a manter a sua postura comum.
Era tal o aperto que, se o acordeão não tivesse fole, aposto que sufocava.”
…
“À noite, o salão de diversões ficava só acessível aos não fumadores. Foi uma imposição do Jaime, que o único tabaco que suportava, e por obrigação, eram os charutos do Coronel.
Dividiam-se os supostos crentes, ciosos de dança, pelos dois espaços: o dos fumadores era o pequeno terraço que havia sobre a cabine, e o dos não fumadores era mesmo por trás da mesma e não chegava a vinte metros quadrados.
Era um espaço simpático, com três paredes brancas e uma em espelhos, como um estúdio de bailado, e uma planta, em vasos de caco laranja, em cada canto. Não tinha lustres como os grandes salões de dança porque o tecto não tinha altura suficiente, mas tinha quatro candeeiros afixados nas paredes, e funcionavam quase todos.
O pobre do Nuno seguia os seus dias de acordeão ao peito, subindo e descendo os parapeitos da embarcação, animando uns e outros consoante as paixões que cada um nutria pela nicotina. Porém, pobre, ninguém se preocupava com as suas.
Um desses dias, enquanto o Nuno descansava os pés, que lhe inchavam com frequência e exalavam um perfume irrespirável, pus-me à conversa com Harpa.
O fio de raciocínio estava já programado. Falaríamos do quarteto, depois do tempo, depois da sua vida artística, para a seguir tentar entrar na particular. E fomos encarreirando conversa.
Passados curtos instantes voltou a ouvir-se soar o acordeão no salão de baixo e, aproveitando o seu já conhecido gosto pelas purezas pulmonares, desafiei-a a dar o gosto ao pé, fazendo par comigo nas valsas do rapaz. Ela acedeu e descemos.
(Meu Deus, nem gaguejei!)
Primeiro, deixei que fossem os pés a falar por mim, e um ou outro desacerto – sempre meu – até foi dando aso a conversa. Sem deixar que parasse a música, atacou o Nuno mais uma dedicatória:
- “Minhas senhoras e meus senhores de pulmões rosadinhos, é para vocês esta valsa: - lá veio:
- “A Valsa dos Sem Isqueiro!”
Era uma valsa melancólica em tom menor, mas, inebriante e enlevada, que enquadrava na perfeição o meu estado de alma.
Harpa movia-se num respeito absoluto ao temperamento da melodia e até nos seus olhos se lia o carácter da música. À conta disso, deixei cair a inibição em menos de meia valsa, e ao mesmo tempo que a valsa se adensava e tornava mais intensa pela desenvoltura das variações que lhe dava o Nuno, íamos acelerando assuntos e conversa. Trocávamos mais as palavras do que os pés.
Num certo momento foi como se me tivessem tirado o cifão e deixado sair a conversa acumulada de um qualquer reservatório de coisas por dizer.
A valsa girava sem fim em torno de um tema e variações quase obsessivo, que foi passando para segundo plano, e depois para terceiro, e quarto até deixarmos de a ouvir, nem a qualquer outro som que não os que nos saíam dos lábios e dos olhos.
Foram longos monólogos, ora autobiográficos, ora meros artigos de opinião.
Foram longos diálogos, ora acesos, ora banhados nas melancolias da alma.
Foram prosas, foram ensaios, foram poemas...foram todos dormir menos nós.
Parou o acordeonista e nós ali, sempre dançando ao som das palavras que íamos alternando e que, talvez à força dos passos, nos saíam sempre em de balanço ternário, mesmo as mais curtas interjeições.
Só parámos quando reparámos que do lado da proa começava a nascer o sol. Aí, saímos em silêncio, incrédulos e ficamos a vê-lo subir. Sem palavra. Num torpor mágico. Sem darmos por isso, já estávamos no dia seguinte.
O tempo tinha adormecido também – quem sabe embalado pelos nossos postulados - ao largo da nossa barcaça.
E demos de novo fio à conversa pela manhã fora.
E depois, pela tarde fora.
E depois ainda pela noite dentro. Penso que adormeci a meio da frase “Por acaso gosto mais de Mahler, especialmente...”. E para ali ficamos deitados lado a lado, de braços estendidos, junto à proa.
Éramos, tal e qual, um cartaz do filme Titanic posto por engano na horizontal!
Ali dormimos pela manhã fora.
E depois pela tarde fora.
E depois ainda pela noite adentro. Penso que acordei a meio dum sonho – não era o Sonho, porque esse já o sentia a pôr-se a caminho entre o mundo do onírico e o do real - em que lhe dizia: “Por acaso gosto mais de Mahler, especialmente...”.
Os dias seguintes foram moldados pelas mãos do mesmo artista.
Ali no convés os assuntos de sempre já iam para aí na décima rodada. Mantinham-se as opiniões, mas eram já muito mais fundamentadas. A sintaxe, por seu turno, evoluía a olhos vistos. Ali comíamos, ali passávamos pelas brasas, e ali ficávamos a ver o Sol afogar-se até ao último raio, num fascinante mergulho cósmico.
Sentia-me numa absoluta ubiquidade: estava ali e no céu!
O rapaz deixara as valsas desde o dia em que havíamos começado a conversa porque já ninguém, nem mesmo ele, tinha frescura de espírito para valsas e fandangos, e a embarcação lá ia sulcando as águas que banhavam as incertezas do destino, sem marcação, nem cadência certa.
Continuou a caça a Meca, e à Arábia em primeira instância. Deixamos de ver o guarda dos bigodes e, por azar, não passava ninguém a quem pedir uma informação. Fizeram-se reuniões de emergência. Confrontaram-se cartas de marear. Pôs-se em causa Alá, e mais tarde a própria existência de divindades.
O Jaime via por um fio o seu Projecto de Conversão Comunitária, que já tratava por P.C.C. e tentava por tudo, que o Graça relesse os mapas de fio a pavio. Já punha em causa o seu talento para o leme. Gritava-lhe que então se guiasse de dia pelo sol e à noite pela lua.
Às tantas já tinha perdido toda a conduta espiritual e punha-se na proa, estendido no chão, meio nú, em pose muçulmânica, mas empunhando um rosário feito com bolas de marmorite que lhe tinham trazido benzido do Vaticano.
Era de facto o mesmo crente, mas agora disposto a crer em tudo e no que mais houvesse, que ninguém se importava com estas cambalhotas do seu espírito porque só lá se ia pelo passeio.
E assim atravessou ele os limites da sua esperança, olhando o céu, deitado no chão, imóvel num silêncio sepulcral. Era fundamental para ele aquela experiência, o contacto directo com o metier do seu novo deus, e estava quase a ver fugir-lhe a oportunidade de sentir na face o calor do seu novo altíssimo.
Mas assim quis deus. - talvez o de cá, por ciúme!
Depois, fim de rota.
De Meca nem sinal.”